Seguradoras cativas: ampliando o ecossistema de transferência de riscos

Publicado em: 01/09/2026
Compartilhe

Conteúdo

Por Juliana Tavares Calzavara, gerente da área de Transferência Alternativa de Riscos do IRB(Re), e Victória Silveira Valle da Silva, analista da área de Transferência Alternativa de Riscos do IRB(Re)*

 

Em um contexto global em que as catástrofes naturais se tornam mais frequentes e severas, com nível elevado de conflitos armados e riscos corporativos complexos emergindo − como cibernético, ESG, supply chain e responsabilidade civil −, grandes indústrias e empresas investem em seguradoras cativas. O objetivo é cobrir riscos específicos de suas próprias atividades em complemento e sinergia às coberturas de seguro atuais, criando novas oportunidades de estruturação conjunta com o mercado segurador e ressegurador.

Segundo conceito criado por Frederic Reiss (1924-1993), considerado o “pai do seguro cativo”, grandes corporações formariam empresas de seguros próprias para cobrir certos riscos inerentes de suas operações. A indústria de seguros cativos, portanto, não é nova, mas ganhou mais tração, sofisticação, diversidade e integração à gestão corporativa de riscos nos últimos anos em organizações que buscam maximizar as vantagens desses veículos no atual ambiente de risco, combinando-os de forma sinérgica com as contratações de apólices atuais para determinadas coberturas de seguros.

A oportunidade de mais protagonismo na gestão dos riscos complexos de suas próprias operações, de otimização do uso de capital dentro do grupo e de integração da gestão de riscos de forma articulada com o mercado segurador e ressegurador como função estratégica de negócio fez com que o veículo das cativas tivesse adoção crescente nos últimos anos, alcançando mais setores da economia mundial.

Com base no relatório 2025 Captive Benchmarking Report, da Marsh, diante de volatilidades econômicas e regulatórias, esse veículo financeiro se destaca como ferramenta para gerir riscos mais complexos e promover o crescimento. De acordo com o documento, 500 novas entidades sob sua consultoria foram formadas nos últimos 5 anos, buscando maior controle de perdas, flexibilidade na gestão de riscos, estabilidade de cobertura em determinados riscos e resiliência diante de transições regulatórias ou de mercado.

Nesse contexto, observa-se não apenas a expansão no número de cativas – crescimento de 6% nos prêmios emitidos, alcançando US$ 77 bilhões em 2024 – como, principalmente, aprimoramento na retenção e transferência de riscos. Observa-se ainda a ampliação das linhas de cobertura para riscos não tradicionais, como os cibernéticos, políticos e de supply chain, transitando para um cenário de gestão otimizada a longo prazo, com mais alinhamento das operações das cativas aos objetivos estratégicos da organização.

Segundo a consultoria, organizações com cativas apresentam ganhos em determinadas áreas como adaptação às mudanças climáticas, supervisão de riscos, geração de emprego e riqueza, relacionamento com clientes e governança corporativa. Outras características relevantes são redução do custo total do risco e uso do superávit da cativa para estratégias de investimento, aumentando a resiliência, possibilitando a preservação de ativos e fortalecendo a sustentabilidade como estratégia de crescimento de longo prazo.

Nota-se ainda que este segmento não está alheio às oportunidades anunciadas pelas novas tecnologias. A inteligência artificial, por exemplo, emerge como um novo vetor de risco e, ao mesmo tempo, de eficiência operacional para as cativas, exigindo adaptação das coberturas e dos níveis de retenção diante de novas exposições. Em paralelo, o avanço das soluções paramétricas reforça a cativa como veículo para acesso a novas coberturas, ampliando a compatibilidade entre a estratégia da companhia e a gestão do risco.

O momento para se investir em uma seguradora cativa também é decisão estratégica. A criação de cativas em ciclos mais favoráveis permite acumular experiência, estruturar governança e desenvolver capacidade de retenção antes de momentos de estresse, reforçando o alinhamento de interesses na gestão do custo total de risco e a priorização da visão de longo prazo.

Em complemento, a EY, em seu relatório Global Insurance Outlook, reforça que cada vez mais empresas estão confortáveis em alocar parte de seus riscos em seguradoras cativas. Elas são capazes, inclusive, de estruturar, em conjunto com o mercado, a cobertura de riscos de suas redes de fornecedores, com amadurecimento do uso do resseguro para reduzir riscos e volatilidade do portfólio.

Os números indicam quão grande é este segmento:

  • ~25% de todo o mercado de seguros comerciais está em seguradoras cativas;
  • 90% das 500 maiores empresas dos EUA por receita possuem seguradoras cativas;
  • 83,9% foi o índice combinado das seguradoras cativas em relação a 98% das seguradoras comerciais de Casualty, considerando a média dos EUA 2018-22; e
  • 2x foi o aumento dos prêmios gerenciados pelas cinco maiores gestoras globais de cativas entre 2017 e 2022.

Enquanto os dados de mercado e os estudos da Marsh e da EY evidenciam a expansão e a sofisticação do ecossistema de transferência de riscos incluindo seguradoras cativas, o relatório Spotlight on Captives 2025 aprofunda essa leitura ao analisar por que e como esse movimento se consolida no novo contexto de riscos.

Diante da crescente gama de riscos em um ambiente global caracterizado por pressões geopolíticas, ambientais, sociais e tecnológicas, as cativas desempenham importante papel como verdadeiros “amortecedores” de volatilidade, ao mesmo tempo em que incentivam uma cultura mais madura de gestão de riscos. Esse movimento é evidenciado tanto pelo crescimento global contínuo, com cerca de 6.290 cativas em operação em 2024, quanto pelo fato de que 72% das empresas que ainda não possuem uma cativa avaliam a criação dessa estrutura.

Ainda em termos de consolidação dessa ferramenta, as estruturas de células cativas ganham destaque por incluírem menor necessidade de capital em comparação a uma cativa independente, além de custos operacionais reduzidos, rapidez de implementação e maior flexibilidade para aporte e desinvestimento.

Essa modalidade estruturada em células existe há quase 30 anos e representa cerca de 38% das novas formações de cativas, podendo assumir diferentes formatos jurídicos dependendo do domicílio, incluindo Protected Cell Companies (PCC), Incorporated Cell Companies (ICC), Segregated Portfolio Companies (SPC) e Sponsored Captives. Apesar das variações estruturais, todas oferecem o diferencial de segregação jurídica entre as células, garantindo que os ativos de uma não sejam utilizados para cobrir passivos de outra.

Além das células cativas, existem também as cativas de grupo que são apontadas como uma solução eficiente principalmente para empresas de médio porte que não têm escala para uma cativa própria. Esse veículo permite reduzir custos fixos por meio de ganho de escala (poder de compra coletivo), oferece preços mais previsíveis com menor exposição ao ciclo de mercado e eleva o nível médio de segurança porque promove o compartilhamento de melhores práticas entre membros.

Como desdobramento desse movimento, observa-se também a ampliação da área de cativas de benefícios corporativos, passando a apoiar diretamente RH, saúde corporativa, retenção de talentos e gestão estratégica de pessoas. Para os grandes conglomerados que operam em diferentes países, por exemplo, o risco médico ganha atenção, pelo acesso a dados estratégicos de coberturas em diferentes regiões que permitem compreensão das causas de sinistros, desenvolvimento de programas de bem-estar e coberturas e iniciativas de prevenção.

Nesse contexto, as seguradoras cativas devem ser entendidas como parte de um ecossistema ampliado de transferência de riscos, que expande as possibilidades de colaboração, inovação e desenvolvimento conjunto com o mercado, no qual seguradoras, resseguradoras e grandes corporações atuam de forma complementar.

 

*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não expressam, direta ou indiretamente, as opiniões do IRB(Re).

Compartilhe
Acessar o conteúdo